Rotina I

Hoje, de lábios rubros, sentei-me na esplanada do café.

A empregada, com um suspiro de enfado – de quem sabe que, mais tarde, vai ter de fazer desaparecer da chávena a marca da minha visita – pergunta-me o que desejo tomar.
” Um café e um pastel de nata, por favor.” Sorrio e agradeço.

Era fim de tarde, o sol começava a esconder-se atrás dos arranha céus, mas continuava a espreitar por entre os ramos das árvores. O vento soprava frio e cheirava a Inverno.
O café, há muito, passou a ser hábito e a nata está a tentar deixar de o ser.

Um menino, passando despercebido aos seus colegas de mesa, crava o seu olhar no meu. Dos seus olhos brilhantes e do canto, milimetricamente curvado, da sua boca escorre um “Olá”, ainda mudo.
Baixo o olhar, olho a chávena vazia e sorrio.

Está marcada.

Quando volto a olhar para ele – já com a nata entre dentes – apercebo-me do quão aversa sou a princípios. A rotina do fim está cravada na minha pele.
Continuo com a nata, mas de olhos postos em mim, e lembro-me de ti.
Tento não estragar a pintura, mas já é tarde demais.

A cor fugiu-me dos lábios.

A mesma cor que usava no último dia em que te vi e em que me sorriste (como o menino do café, mas com um “Olá” sonoro e meigo).

Olho, uma última vez, para a empregada, para o menino e para a chávena do café – a nata também desapareceu, entretanto – e retoco o baton.

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Descobrir, só.

Os meus pés não conhecem estas ruas.
Não tenho, na memória, uma única imagem deste lugar.
Os olhos não sabem onde pousar e o peito aperta com medo do desconhecido.
Resisto à tentação de olhar para a janelinha que pisca no meu bolso, com o nome certo das coisas e a direcção que devo seguir.

Hoje, quero perder-me.

A vontade e o instinto serão os meus guias; a felicidade e a aventura, o meu norte e sul!

“Vê o rio.” Sussurra uma voz lá ao longe.

É o primeiro amor em que os meus olhos decidem descansar. Sigo-o passo a passo, devagar (como ele corre), tábua a tábua, por pequenas casas encostadas a pequenos barcos. Ele cintila, ri e leva-me a uma imensidão verde.
Apaixono-me novamente.
E a força é tal, que não sou capaz de continuar sem repousar um pouco e olhar bem em meu redor.
Vejo um caminho, ladeado de árvores que se abraçam e parecem lustres de cristal.
O sol brilha forte e o meu sorriso abre.
O coração foge do peito e saltita na alameda.
Sucessões de verde pintam as minhas memórias e a cada pequena casa de sonho, a cada edifício imponente, a cada livraria e postal encontrado, o medo de me perder desaparece.
Quando, finalmente, paro para respirar mais fundo e adoçar a boca, já me sinto cheia!

Ainda não conheço o caminho, ainda me perco nas esquinas, ainda dou voltas sem conta no mesmo lugar e não sei o nome das coisas…resta, apenas, a certeza de que posso, sei e consigo ser feliz assim: só.

Cambridge 2018

Coração vs Sonho

As pálpebras ainda meio adormecidas e a vontade de chorar – madrugadora nata – já batia à porta.

O meu peito, qual pugilista, bate com toda a força que tem, em intermináveis assaltos, onde ele nem sempre ganha.
Está cansado, roxo, dorido, manco e ” cair e levantar” é o que de melhor sabe fazer.

Passeaste nos meus sonhos, hoje, e parecia Verão.
Os meus cobertores viraram braços e a tua cara bordado na minha almofada.
Os teus olhos e palavras inundados de “gosto de ti”, como se já não fosse a primeira vez.
Dei por mim a sentir saudades de coisas que nunca foram, de palavras que nunca dissemos, de colos que nunca existiram, de abraços sem prazo de validade e da simplicidade e naturalidade de um amor que nunca chegou a ser criança.
Saudades daquilo de que só em sonhos fiz parte.

Hoje, venceste-me.

Mas, amanhã, haverá novo assalto e tu também cairás, um dia – mesmo que a mão que te apague não seja a minha.

A lesson on how to forget you

I never quite understood the process of forgetting someone.
Especially, someone to whom you have entrusted your most prized possession – your heart.
Until today.
Today, when we parted and our fingers brushed against each other, I could feel my own grasping the heart I carefully placed in your hands, a year ago.
I finally took it back.
And although our farewell was short and hurried, with the promise of a future encounter, I know the next time we meet I’ll be different.
The moment I turned my back on you and took the first step away, I felt the renewed beating of my heart. So fast! So intense! Like it hadn’t been in a while…
It pushed me forward and I found myself running out of breath, as my feet flew over the pavement.
When I finally settled down, I could sense how heavy my chest became.
Heavy, but oddly calm and reassured that it was in its rightful place – my hands.
Suddenly, and for the first time, the thought of your smile and the kindness of your eyes entered my mind as nothing more than a fond memory you keep, to warm you on cold days.
Your name vanished, impossibly slow, and in its trail, only three little words remain: “thank you” and “goodbye”.

9 things I’d wish upon a falling leaf

1. Patience. In a world reigned by intolerance, let the winds of change carry words of peace and kindness and may they bring the most serene breeze into my restless heart.

2. Health. Like an old and wise tree, let me find healing in the shedding of my leaves. That each dry and rotten piece of my soul may find its rightful resting place, on the ground, away from the rough bark of my body.

3. Forgetfulness. As a fully undressed piece of autumn nature, bare me of my feelings and my weight, so that I can be reborn in the next spring, with overflowing strength and potential and no fear of never bearing fruits again.

4. Rain. Because what more could a heavy and parched heart want, than a gentle and refreshing shower to quench its thirst and help softly pluck away what might be preventing its inevitable flight?

5. Time. I often find myself lost in all its immeasurable flow…stuck between having too much of it on my hands or not grabbing its tail when it seems to want to get away from me. Like a powerful magician, make my will alone bend the hands of the clock of life, so that I can rush through the frosty winter days, stop when I finally find that fire I’ve been yearning for, and live the rest of my seasons burning impossibly slow in its embrace, until there’s nothing left of me but ash.

6. Strength. Let my feet be firmly planted on the ground, like jumbled, but secure roots. May I find that, while my soul screams and quivers, my arms and my words, like robust branches, remain unfazed by the violent storms of change…

7. Light. For a girl who has been slowly turning grey, but never ceased to believe in the brightness of the stars above or the warm colours of a sun that just started to set. Pray that her melancholic eyes, may possibly turn that unfading blue twinkle into colourful, blinding, New Year’s Eve fireworks!

8. Comfort. If ever, like you, I were to fall, I’d wish for your grace and peace. And after the plunge, like in a bundle of snugly socks and cozy jumpers, I’d land softly on a mattress of you. And, like a child in her favourite park, I’d laugh.

9. And lastly, love. Because in it lives every single one of these wishes and every other prayer that could possibly matter.

Silence

” Have you been waiting for long? ”

” Longer than I thought I was capable of… ”

” Still…you haven’t left yet? ”

” Would it be easier on you if I did…? ”

He didn’t know how to answer.
It often happened when it came to her.
She had always been very smart with words.
They were her charm, her weakness, her weapon.
She knew how to use them better than anybody.
Maybe that’s why she made others speechless quite frequently, him included.

Still the deadliest weapon in her arsenal were definitely her eyes.
Not because they reminded him of deep green forests or endless waves of crystal blue or the sweet and smooth richness of brown chocolate.
But because they were true and betrayed all her most secret thoughts.
Her relentless adoration for him the greatest one of them all.
Perhaps that was the reason he so often stayed silent and his eyes rarely met hers, when they most should, except for a brief moment, before she could steal his own secrets.

O que dizem os meus(teus) olhos

Gostava de pousar os olhos nos meus.
De ver o que vês, quando te quero gritar à alma e vasculhar as tuas memórias – aquelas que ainda são segredo – naquele meu silêncio de contemplar.
O meu olhar sempre foi bom conversador, mas esqueci-me da sua língua materna há muito…o dicionário ainda está numa das minhas prateleiras e sei-o de cor, mas nunca fui boa professora no que toca ao entender de mim mesma.
Ainda, no bolso, das portas que fui abrindo para ti, uma a uma, pensei ter as chaves. Fui-me esquecendo delas pelo caminho e, agora, com os bolsos vazios, sou uma casa de portas escancaradas , que não param de bater, à mercê das correntes de ar da vida.

Não quero sair de mim e encontrar o retrato de alguém que apenas soube sofrer: de lágrima fácil e insistente, sorriso agridoce, que suspira “e ses…” e mendiga amor.

Quero ser o sorriso apertado contra o teu peito, que os teus olhos fechados e cansados nunca viram.
Quero ser o carinho leve ou o desejo forte, que fez as tuas mãos pousarem em mim, como dedos que brincam e deslizam em tapete de degraus brancos e negros, de onde nasce a música, às vezes.
Quero ser as noites mal dormidas, a sonhar com o amanhã.
Quero ser super-nova e explodir de amor!
Quero ser oceano sereno e cintilante, onde navio algum será capaz de perder o norte.

Mas tu não estás.
Não vês.
Não dizes.
Não sentes.
E eu continuo, insecto tonto, debaixo do olhar atento da lupa da amizade, à procura do que outrora fora a minha casa.