Princípio vs Fim

Não quero ser o nome de que te recordas, quando os olhos teimam em fechar;

Não quero ser palavra, seguida de ponto final, nas cartas que escreves ao coração;

Não quero ser a alma com quem sabes querer ficar a vida inteira.

Deixa o que vivemos, deixa as memórias no passado, onde elas sempre se sentiram em casa.

Quero, sim, ser o primeiro nome que te sai dos lábios quando o Sol te tocar, ao de leve, as pálpebras e te quiser segredar um “bom dia” ao ouvido;

Quero ser, sempre, o nome que começa todas as frases dos infinitos diálogos de amor que tens contigo mesmo (porque os outros não precisam de saber);

Quero ser aquela com quem queres fazer tudo aquilo que nunca fizeste (e experimentar de novo tudo o que já sabes gostar).

Para ti, quero ser princípio e nunca fim.

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New freckles, old loneliness

Her gaze unconsciously landed on the mirror at her side.

These days, everytime she looked at herself there was something new to discover: a new beauty spot in her endless row of petite constellations, a faint wrinkle in the corner of her eye from laughing too hard, a chipped nail in an otherwise perfect manicure or the dark hair that keeps growing even though she tries her utmost best for it to stay short.

Whenever she had the time to loose herself in her own likeness, she ended up seeing much more than what meets the eye. And it was precisely in those little windows to her soul that she found an almost invisible shroud of loneliness.

The one thing unchanged throughout the years.

Most of the time masked in the word independence.

A feeling so her own that she couldn’t pinpoint exactly when it had started, when it was learnt or if it was ever going to disappear.

All she could do was wait for the desperate warmth and sparkle of her eyes to once again transform her image, as her brand new timid freckles waited to bring light to an otherwise plain sheet of pale skin.

Pensar Verão

1. Enquanto os fios de cabelo caíam, a incerteza desfazia-se ao som da tesoura.

2. O vento quente chegou. Encosta-te, sem colar. Quero continuar a ser apenas eu, contigo.

3. Podem o morango, a cereja, a melância e o melão não ter o gosto do Verão?

4. As (tuas) memórias leva-as o vento. As (tuas) palavras nunca chegaram a mim.

5. Banquete de sorrisos e amor. Nunca o estômago se tinha sentido transbordar de felicidade.

6. Desculpa se não quero ficar. Mãos quentes não aquecem coração frio.

7. Primavera, temos saudades. Porque não vieste, como tinhas prometido? Assinado: Verão, Outono, Inverno e o meu coração.

8. Alcunhas carinhosas, quando acompanhadas de sorrisos e abraços, têm o poder de transformar o mar no olhar em solo fértil no peito.

9. Dia de renascer. Dia de chuva. Dia de amor. Dia de luz. Dia de hambúrguer. Dia de melodia. Dia de gargalhadas. Dia de Junho. Começou em 1991.

Rotina I

Hoje, de lábios rubros, sentei-me na esplanada do café.

A empregada, com um suspiro de enfado – de quem sabe que, mais tarde, vai ter de fazer desaparecer da chávena a marca da minha visita – pergunta-me o que desejo tomar.
” Um café e um pastel de nata, por favor.” Sorrio e agradeço.

Era fim de tarde, o sol começava a esconder-se atrás dos arranha céus, mas continuava a espreitar por entre os ramos das árvores. O vento soprava frio e cheirava a Inverno.
O café, há muito, passou a ser hábito e a nata está a tentar deixar de o ser.

Um menino, passando despercebido aos seus colegas de mesa, crava o seu olhar no meu. Dos seus olhos brilhantes e do canto, milimetricamente curvado, da sua boca escorre um “Olá”, ainda mudo.
Baixo o olhar, olho a chávena vazia e sorrio.

Está marcada.

Quando volto a olhar para ele – já com a nata entre dentes – apercebo-me do quão aversa sou a princípios. A rotina do fim está cravada na minha pele.
Continuo com a nata, mas de olhos postos em mim, e lembro-me de ti.
Tento não estragar a pintura, mas já é tarde demais.

A cor fugiu-me dos lábios.

A mesma cor que usava no último dia em que te vi e em que me sorriste (como o menino do café, mas com um “Olá” sonoro e meigo).

Olho, uma última vez, para a empregada, para o menino e para a chávena do café – a nata também desapareceu, entretanto – e retoco o baton.

Descobrir, só.

Os meus pés não conhecem estas ruas.
Não tenho, na memória, uma única imagem deste lugar.
Os olhos não sabem onde pousar e o peito aperta com medo do desconhecido.
Resisto à tentação de olhar para a janelinha que pisca no meu bolso, com o nome certo das coisas e a direcção que devo seguir.

Hoje, quero perder-me.

A vontade e o instinto serão os meus guias; a felicidade e a aventura, o meu norte e sul!

“Vê o rio.” Sussurra uma voz lá ao longe.

É o primeiro amor em que os meus olhos decidem descansar. Sigo-o passo a passo, devagar (como ele corre), tábua a tábua, por pequenas casas encostadas a pequenos barcos. Ele cintila, ri e leva-me a uma imensidão verde.
Apaixono-me novamente.
E a força é tal, que não sou capaz de continuar sem repousar um pouco e olhar bem em meu redor.
Vejo um caminho, ladeado de árvores que se abraçam e parecem lustres de cristal.
O sol brilha forte e o meu sorriso abre.
O coração foge do peito e saltita na alameda.
Sucessões de verde pintam as minhas memórias e a cada pequena casa de sonho, a cada edifício imponente, a cada livraria e postal encontrado, o medo de me perder desaparece.
Quando, finalmente, paro para respirar mais fundo e adoçar a boca, já me sinto cheia!

Ainda não conheço o caminho, ainda me perco nas esquinas, ainda dou voltas sem conta no mesmo lugar e não sei o nome das coisas…resta, apenas, a certeza de que posso, sei e consigo ser feliz assim: só.

Cambridge 2018

Coração vs Sonho

As pálpebras ainda meio adormecidas e a vontade de chorar – madrugadora nata – já batia à porta.

O meu peito, qual pugilista, bate com toda a força que tem, em intermináveis assaltos, onde ele nem sempre ganha.
Está cansado, roxo, dorido, manco e ” cair e levantar” é o que de melhor sabe fazer.

Passeaste nos meus sonhos, hoje, e parecia Verão.
Os meus cobertores viraram braços e a tua cara bordado na minha almofada.
Os teus olhos e palavras inundados de “gosto de ti”, como se já não fosse a primeira vez.
Dei por mim a sentir saudades de coisas que nunca foram, de palavras que nunca dissemos, de colos que nunca existiram, de abraços sem prazo de validade e da simplicidade e naturalidade de um amor que nunca chegou a ser criança.
Saudades daquilo de que só em sonhos fiz parte.

Hoje, venceste-me.

Mas, amanhã, haverá novo assalto e tu também cairás, um dia – mesmo que a mão que te apague não seja a minha.

A lesson on how to forget you

I never quite understood the process of forgetting someone.
Especially, someone to whom you have entrusted your most prized possession – your heart.
Until today.
Today, when we parted and our fingers brushed against each other, I could feel my own grasping the heart I carefully placed in your hands, a year ago.
I finally took it back.
And although our farewell was short and hurried, with the promise of a future encounter, I know the next time we meet I’ll be different.
The moment I turned my back on you and took the first step away, I felt the renewed beating of my heart. So fast! So intense! Like it hadn’t been in a while…
It pushed me forward and I found myself running out of breath, as my feet flew over the pavement.
When I finally settled down, I could sense how heavy my chest became.
Heavy, but oddly calm and reassured that it was in its rightful place – my hands.
Suddenly, and for the first time, the thought of your smile and the kindness of your eyes entered my mind as nothing more than a fond memory you keep, to warm you on cold days.
Your name vanished, impossibly slow, and in its trail, only three little words remain: “thank you” and “goodbye”.